"Ring out, wild bells"
Ring out, wild bells, to the wild sky,
The flying cloud, the frosty light:
The year is dying in the night;
Ring out, wild bells, and let him die.
Ring out the old, ring in the new,
Ring, happy bells, across the snow:
The year is going, let him go;
Ring out the false, ring in the true.
Ring out the grief that saps the mind
For those that here we see no more;
Ring out the feud of rich and poor,
Ring in redress to all mankind.
Ring out a slowly dying cause,
And ancient forms of party strife;
Ring in the nobler modes of life,
With sweeter manners, purer laws.
Ring out the want, the care, the sin,
The faithless coldness of the times;
Ring out, ring out my mournful rhymes
But ring the fuller minstrel in.
Ring out false pride in place and blood,
The civic slander and the spite;
Ring in the love of truth and right,
Ring in the common love of good.
Ring out old shapes of foul disease;
Ring out the narrowing lust of gold;
Ring out the thousand wars of old,
Ring in the thousand years of peace.
Ring in the valiant man and free,
The larger heart, the kindlier hand;
Ring out the darkness of the land,
Ring in the Christ that is to be.
(poesia de Alfred Tennyson)
segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
Benazir Bhutto foi hoje assassinada
Há pessoas que são grandes, grandes, como que possuídas de um sentido de missão que as multiplica na grandeza, que lhes confere um valor de outra dimensão à sua vida e que torna por sua vez os nossos pequenos problemas tão mais irrelevantes.
É dessa grandiosa matéria-prima que Benazir de há muito me parecia feita, como bem se pode perceber escutando-a na sua impressionante reacção ao anterior ataque suicida, há 2 meses. São cerca de 12 minutos que vos convido a roubarem ao V. lazer, dedicando-os à sua memória.
Talvez por isso, porque esta grandeza é mortífera para a corrupção, para as máfias, para a criminalidade institucionalizada nos poderes mais ou menos informais das sociedades a Oriente - no Paquistão levada ao governo institucional e entronizada pelos Serviços Secretos e pelos militares, por sua vez provavelmente pagos e instigados pela Síria, Arábia Saudita, Al Qaeda e por outras associações criminosas mais ou menos orgânicas - foi seguramente por isso que Benazir tinha uma sentença de morte traçada. Parecia apenas uma questão de tempo.
Mulher, bela, demasiado ocidentalizada para o seu meio, isto é demasiado revolucionária nos valores, demasiado livre, perigosa e excessivamente democrática para aquele mundo de trevas que é em grande medida o Médio-Oriente, Benazir pode ainda vir a ser uma referência, se os democratas no Paquistão conseguirem prevalecer e se os democratas do mundo encontrarem melhores formas de romper o cerco da semi-barbárie que ainda domina aquela região.
Oxalá que a coragem desta grande mulher tenha valido a pena, na sua abdicação da liberdade individual, do seu conforto, da sua família, da sua vida. Oxalá que, para todos os que prezamos a vida, a liberdade, os valores básicos da dignidade dos homens e dos povos, que a todos nos sirva de lição e que percebamos melhor que há grandes causas no mundo que precisam de grandes líderes e que há pequenos gestos que todos podemos ter, deplorando e denunciando a presumivel impunidade dos miseráveis assassinos de Benazir, ou quando elogiarmos o exemplo de cidadania e heroicidade desta grande mulher.
segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
(podia ser) uma história de Natal
Numa noite da semana passada, fui ao Colombo, passava já das 11 da noite. Entrei e saí rápido e, chegado à máquina de pagar o estacionamento, fiquei em fila com um tipo mais ou menos da minha idade. Espirrei. Vira-se o fulano para trás, com um sorriso moderado, e dispara um costumeiro "santinho". Hoje em dia diz-se cada vez menos "santinho". O "saúde", e ainda mais o silêncio, parceiro da indiferença, vêm substituindo a antiga forma de compaixão por quem espirra.
Mas não se ficou ele pelo "santinho", acrescentando um ainda mais não habitual, mas não original, "não sei se é".
Fiquei preocupado, pois estava eu acompanhado de uma mulher e o risco de ali acontecer um "male flirt" fez soar-me campaínhas. Mas não.
"É que não sei se sabe porque se diz "santinho" a alguém que espirra?". Que não senhor, não sabia eu, disse-lhe. "Pois, é que parece que o nosso coração para quando espirramos. Como que suspende o seu batimento para que o ar expelido não o sufoque ao sair. Em boa verdade, como que morremos naquela fracção de segundo. Por isso diziam os antigos que se o coração para, então, quando acabou o espirro e estamos vivos é porque somos santos. Santinho, na expressão mais carinhosa".
"Conte agora você a história aos seus amigos, visto que a mim também me contaram. Boa noite, tenha um bom Natal".
Mas não se ficou ele pelo "santinho", acrescentando um ainda mais não habitual, mas não original, "não sei se é".
Fiquei preocupado, pois estava eu acompanhado de uma mulher e o risco de ali acontecer um "male flirt" fez soar-me campaínhas. Mas não.
"É que não sei se sabe porque se diz "santinho" a alguém que espirra?". Que não senhor, não sabia eu, disse-lhe. "Pois, é que parece que o nosso coração para quando espirramos. Como que suspende o seu batimento para que o ar expelido não o sufoque ao sair. Em boa verdade, como que morremos naquela fracção de segundo. Por isso diziam os antigos que se o coração para, então, quando acabou o espirro e estamos vivos é porque somos santos. Santinho, na expressão mais carinhosa".
"Conte agora você a história aos seus amigos, visto que a mim também me contaram. Boa noite, tenha um bom Natal".
domingo, 23 de Dezembro de 2007
sábado, 8 de Dezembro de 2007
O efémero, na política porque também na vida
Tenho o hábito de acumular jornais, às vezes semanas, até meses.
Lia há pouco a crónica de 27 de Outubro passado de Fernando Madrinha, no "Expresso", e lá encontrei uma afirmação muito categórica, em resposta à primeira sondagem logo após a vitória de Luis Filipe Menezes nas "directas" do PSD.
Dizia Madrinha que o encosto quase imediato de Menezes a Sócrates e ao seu PS provava "definitivamente" que as presidências europeias (entenda-se por presidência do Conselho de Ministros da U.E.) não só não traziam qualquer vantagem eleitoral ao partido de governo como antes provocava desgaste. Conclusão implícita seria que ao presidir ao orgão de ministros e de líderes de governo, os ministros e o primeiro-ministro portugueses mostravam aos portugueses descurar a sua própria agenda, os seus interesses, quem sabe se em nome de uma euro ou mesmo mundi-vaidade.
Estamos hoje pouco a um mês e meio de distância e já nada é assim. O PS distanciou-se novamente e em duas sondagens já se aproxima do nível de renovação da maioria absoluta, assim desmontando tudo o que Madrinha disse.
Mas por que raio de razão tipos avisados, experientes, inteligentes como este tanto insistem em afirmações para a eternidade, postulados magníficos, sonantes, mas tão efémeros? Nunca perceberei.
Lia há pouco a crónica de 27 de Outubro passado de Fernando Madrinha, no "Expresso", e lá encontrei uma afirmação muito categórica, em resposta à primeira sondagem logo após a vitória de Luis Filipe Menezes nas "directas" do PSD.
Dizia Madrinha que o encosto quase imediato de Menezes a Sócrates e ao seu PS provava "definitivamente" que as presidências europeias (entenda-se por presidência do Conselho de Ministros da U.E.) não só não traziam qualquer vantagem eleitoral ao partido de governo como antes provocava desgaste. Conclusão implícita seria que ao presidir ao orgão de ministros e de líderes de governo, os ministros e o primeiro-ministro portugueses mostravam aos portugueses descurar a sua própria agenda, os seus interesses, quem sabe se em nome de uma euro ou mesmo mundi-vaidade.
Estamos hoje pouco a um mês e meio de distância e já nada é assim. O PS distanciou-se novamente e em duas sondagens já se aproxima do nível de renovação da maioria absoluta, assim desmontando tudo o que Madrinha disse.
Mas por que raio de razão tipos avisados, experientes, inteligentes como este tanto insistem em afirmações para a eternidade, postulados magníficos, sonantes, mas tão efémeros? Nunca perceberei.
segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007
quando a democracia implica com a vida: um Viva ao Garry Kasparov
Há momentos de absoluta definição na vida de um homem. Garry Kasparov encontrou o seu, que é a missão de enfrentar a face mais visível da tirania russa, na pessoa do macabro Vladimir Putin.As armas são desiguais, mas também a dimensão moral destes dois homens é incomparável.
E depois há que honrar Litvinenko, não pelo que este possa ter sido em vida, mas pela sua morte
sórdida e tremendamente cobarde, num incrível atentado à inteligência do mundo inteiro.Há também que fazer justiça à memória da assassinada Anna Politkovskaya, a mulher das mil coragens, capaz de mover mundos para revelar o lado negríssimo do poder de Moscovo, em tantos aspectos tão negro como antes da queda do muro de Berlim.
Por tudo isto, um grande viva ao Kasparov, na sua luta com armas tão mais desiguais que antes, quando defrontou Karpov, ou quando jogou contra o "Deep Blue" da IBM. Agora é mais difícil, é o tabuleiro da vida real, qual David contra Golias.
Que vença David, se possível com "cheque-mate".
notícias bem más: a nomenklatura do Kremlin ganhou em toda a linha
Kasparov foi estupidamente preso há dias e, visto do Ocidente livre, o episódio parecia até poder configurar um esperançoso ponto de viragem para a consciência democrática do povo russo, um sinal da loucura tirânica do poder, no género daquela tentação ditatorial que levou Hugo Chavez ao referendo na Venezuela, e que o povo em bom momento percepcionou como o momento certo para dizer "basta!".
Intimamente, muitos esperávamos que essa percepção democrática tivesse já alguma tradução nas eleições que se lhe sucederiam, disputadas ontem.
Intimamente, muitos esperávamos que essa percepção democrática tivesse já alguma tradução nas eleições que se lhe sucederiam, disputadas ontem.Engano puro. As oposições democráticas ficaram fora do parlamento, a "Duma", e ganharam os partidos da nomenklatura actual, os putinistas, os "comunistas", os neo-fascistas e quejandos.
Embora se apregoe da imensidão das pequenas e maiores irregularidades legais e/ou democráticas, o facto é que o cidadão russo médio tem manifestamente a mentalidade demasiado marcada por séculos de tirania e gosta de tiques imperiais, tendo-se, mais uma vez, como sempre, fascinado pelo Czar que está.
Para os russos médios, visivelmente nostálgicos de uma memória imperial mítica, por séculos nunca interrompida, parece que quanto mais Czar melhor. Na verdade, os russos amaram enquanto esteve Stalin, o Czar sanguinário, Ieltsin foi um querido Czar de tipo quase louco, impulsivo e bêbedo, e este Putin é um Czar quase erudito, poliglota medíocre saído da "inteligentsia" KGB, a expressão orgânica mais brutal da última época imperial.
Mas Putin não se livra de dar a sensação de poder vir a ser o último Czar.
Só que há poucas esperanças de reformas evolucionárias nesta Rússia alucinada, demasiado grande.
Será que Vladimir Putin acabará por encontrar o modo de fazer explodir esta Grande Rússia?
É que parece que o bem-estar do mundo precisa de uma bem mais pequena Rússia, de Moscovo a S. Petersburgo e bem agradeceria esse involuntário contributo da estupidez de Putin, o czarzito que está. Haja esperança que a sensatez um dia volte e vote, na Rússia.
notícias boas: Chavez perdeu uma batalha (um dia a guerra?)
A derrota de Chavez, no referendo de ontem, na Venezuela, é um foco importantíssimo de esperança e é a demonstração de como a democracia, tantas vezes, tem a necessária válvula de segurança para conter a tentação da
insanidade.
insanidade.Mas, ou me engano muito ou o proto-ditador Chavez vai arranjar maneira de dar a volta e impor de outro modo o que o povo venezuelano, em admirabilíssimo exercício de sabedoria, condenou nas urnas. É que raramente se viu um ditadorzeco, mesmo um destes, de província, ficar-se pela primeira derrota.
A não ser que o medo de tudo perder o faça reconformar-se à sua visível pequenez, oxalá que empequenecendo tanto que um dia desapareça por fim do poder.
Mas isso é coisa da democracia. Aí sim, o povo da Venezuela mostrará bem de que fibra é feito. Espero que da boa.
a loucura que nos habita
Quase todos os dias, parece que a morte espreita, sempre que saio de carro. Saio do parqueamento e ninguém deixa entrar. Forço e sigo. Como sigo moderado a lento, pois moro junto a escola, e nunca se sabe se uma criança não aparece de repente, atrás de mim, não raro, forma-se uma fila de impacientes, sempre a ameaçarem ultrapassar onde não devem.
Chego à rotunda e tenho de avançar decidido, pois, se hesito, o pessoal quer lá saber das leis da prioridade em rotunda.
Agora, o acesso ao IC 19, por mérito das obras, faz-se sem espaço para aceleração e entrega progressiva. Entro por isso de sopetão. Entro, isto é, tenho de meter e acelerar com veemência.
Se vou a Lisboa, como hoje, como ontem, como 6ª fª, como tantas vezes, pareço ser o único que cumpre os limites. Fico decepcionado comigo, pelos meus míseros 50 km/h.
Se circulo em auto-estrada ou via rápida de 2 vias, agora que tenho o hábito de adoptar uma média entre 90 e 100 km/h - calculo que poupo com isso uns 1,5 litros aos 100 km - sinto sistematicamente a pressão dos que circulam a 130/140, que rodam à direita comigo, pois esses têm de se afastar para que passem os que rodam a 150/220 hm/h.
Um dia ainda tenho um acidente por velocidade insuficiente, tantos os loucos que utilizam o carro como quem usa uma bazuca pilotada.
Chego à rotunda e tenho de avançar decidido, pois, se hesito, o pessoal quer lá saber das leis da prioridade em rotunda.
Agora, o acesso ao IC 19, por mérito das obras, faz-se sem espaço para aceleração e entrega progressiva. Entro por isso de sopetão. Entro, isto é, tenho de meter e acelerar com veemência.
Se vou a Lisboa, como hoje, como ontem, como 6ª fª, como tantas vezes, pareço ser o único que cumpre os limites. Fico decepcionado comigo, pelos meus míseros 50 km/h.
Se circulo em auto-estrada ou via rápida de 2 vias, agora que tenho o hábito de adoptar uma média entre 90 e 100 km/h - calculo que poupo com isso uns 1,5 litros aos 100 km - sinto sistematicamente a pressão dos que circulam a 130/140, que rodam à direita comigo, pois esses têm de se afastar para que passem os que rodam a 150/220 hm/h.
Um dia ainda tenho um acidente por velocidade insuficiente, tantos os loucos que utilizam o carro como quem usa uma bazuca pilotada.
domingo, 25 de Novembro de 2007
Mário
Mário Soares foi hoje entrevistado na TSF e, mais uma vez, deixou marcas quanto ao seu estado de saúde e ao seu estado de espírito. Impressiona a lucidez deste homem que tanto e tão intensamente já viveu. Talvez seja por dormir tão bem, como se sabe.
Engraçada a história que contou, que dentro da madrugada de um dos dias mais aflitivos da crise financeira de 1983-1985 - não concretizou exactamente quando, presume-se que em 1983 - lhe telefonou um governador do Banco de Portugal, dizendo-lhe algo como "Sr. Presidente, amanhã vão estoirar as reservas em moeda e pode ser o caos, há que tomar medidas firmes logo de manhã, sem falta. (responde-lhe Soares) Mas ó Governador, se quer que tome amanhã uma decisão tão difícil, deixe-me dormir já, pois de outro modo não estarei nas melhores condições que ela exigirá".
Caso para dizer, atenta a grandeza única de Mário Soares, que talvez seja o "sono dos justos" que torna este homem um tal gigante em tão inúmeras acepções.
Foi um prazer reescutar Mário em grande forma.
Engraçada a história que contou, que dentro da madrugada de um dos dias mais aflitivos da crise financeira de 1983-1985 - não concretizou exactamente quando, presume-se que em 1983 - lhe telefonou um governador do Banco de Portugal, dizendo-lhe algo como "Sr. Presidente, amanhã vão estoirar as reservas em moeda e pode ser o caos, há que tomar medidas firmes logo de manhã, sem falta. (responde-lhe Soares) Mas ó Governador, se quer que tome amanhã uma decisão tão difícil, deixe-me dormir já, pois de outro modo não estarei nas melhores condições que ela exigirá".Caso para dizer, atenta a grandeza única de Mário Soares, que talvez seja o "sono dos justos" que torna este homem um tal gigante em tão inúmeras acepções.
Foi um prazer reescutar Mário em grande forma.
a fé em crise
No momento em que o Papa e a Cúria de Roma incitam publicamente a igreja portuguesa a reformar-se e a modernizar a prática religiosa, esta acabou de inaugurar igreja no santuário que mais simboliza a fé pagã e emocional.
Tenho cá eu a impressão que estas coisas se ligam e que Bento XVI acha que não é pelos milagres e pela fé "inculta" que se seduzirá as novas gerações, de que em Portugal os bispos se queixam ver ausentes das igrejas e da comunidade católica.
Tenho cá eu a impressão que estas coisas se ligam e que Bento XVI acha que não é pelos milagres e pela fé "inculta" que se seduzirá as novas gerações, de que em Portugal os bispos se queixam ver ausentes das igrejas e da comunidade católica.
terça-feira, 20 de Novembro de 2007
a importância de Juan Carlos
Porque é em Espanha o anseio republicano tão incipiente, tão invisível, ao menos na sua projecção pública?
Acresce que é frequente associar-se a reclamação de fim da monarquia às causas independentistas, ou às franjas cívicas mais radicais, estas no imaginário espanhol perigosamente perto das primeiras.
A única explicação que me ocorre prende-se com a convicção que as elites têm, sobretudo aquelas que se federam em torno do PSOE, de que o rei Juan Carlos corporiza o único factor imaterial de coesão nacional encontrável. Não a monarquia, Juan Carlos.
A Espanha é talvez o país mais frágil, o menos consolidado, de entre os grandes países europeus.
Não são somente os movimentos radicais na Catalunha ou no País Basco, são já hoje as elites e até as massas de cada uma das regiões que reclamam poderem seguir o seu caminho, político, económico, linguístico.
O "porque no te callas?" de Juan Carlos na cimeira ibero-americana de há dias, dirigido a Chavez, demonstrou bem como é eminentemente imaterial e tão fortemente simbólico o seu papel coesionador na pátria aqui ao lado. Uma espécie de última trincheira da grande Espanha histórica.
E depois de Juan Carlos?
Acresce que é frequente associar-se a reclamação de fim da monarquia às causas independentistas, ou às franjas cívicas mais radicais, estas no imaginário espanhol perigosamente perto das primeiras.
A única explicação que me ocorre prende-se com a convicção que as elites têm, sobretudo aquelas que se federam em torno do PSOE, de que o rei Juan Carlos corporiza o único factor imaterial de coesão nacional encontrável. Não a monarquia, Juan Carlos.A Espanha é talvez o país mais frágil, o menos consolidado, de entre os grandes países europeus.
Não são somente os movimentos radicais na Catalunha ou no País Basco, são já hoje as elites e até as massas de cada uma das regiões que reclamam poderem seguir o seu caminho, político, económico, linguístico.
O "porque no te callas?" de Juan Carlos na cimeira ibero-americana de há dias, dirigido a Chavez, demonstrou bem como é eminentemente imaterial e tão fortemente simbólico o seu papel coesionador na pátria aqui ao lado. Uma espécie de última trincheira da grande Espanha histórica.
E depois de Juan Carlos?
sábado, 17 de Novembro de 2007
o Estado que temos
É para mim mistério por que razão pensarão ilustres intelectuais, professores catedráticos, fazedores de opinião, que são os governos os primeiros responsáveis pelos crescimentos da economia (ou pela sua falta), pelas variações das taxas de desemprego, pelas variações de produtividade.
Mais ainda me surpreende serem muitas vezes liberais economistas e destacados empresários a afirmarem a expectativa de centralidade do papel do Estado e dos governos na economia real que nem já eu, modesto homem das letras, arrisco reconhecer.
Podem muito pouco e vangloriam-se demasiado os governos, hoje em dia, apenas tendo à sua mão dois grandes instrumentos de intervenção nas grandes dinâmicas económicas: os impostos e as obras públicas.
Mais ainda me surpreende serem muitas vezes liberais economistas e destacados empresários a afirmarem a expectativa de centralidade do papel do Estado e dos governos na economia real que nem já eu, modesto homem das letras, arrisco reconhecer.
Podem muito pouco e vangloriam-se demasiado os governos, hoje em dia, apenas tendo à sua mão dois grandes instrumentos de intervenção nas grandes dinâmicas económicas: os impostos e as obras públicas.
terça-feira, 13 de Novembro de 2007
Pacheco Pereira
Pacheco Pereira merece a maior admiração aqui a este escriba. É talvez aquele político cuja trajectória e cuja autoridade mais me merecem estima, reconhecimento e cada vez mais até concordância e adesão.
É erro crasso, pois cada vez mais as percepções das massas parece estarem sensíveis a valores como aqueles que Pacheco Pereira indiscutivelmente representa, acima de todos a verdade na sua compostura face à coisa pública.
Existe um mito, muitas vezes alimentado pelo próprio, que o seu perfil não o vocaciona para a liderança de um partido de massas como o PSD, pois Pacheco é, e é mesmo, um autêntico aristocrata intelectual.
É erro crasso, pois cada vez mais as percepções das massas parece estarem sensíveis a valores como aqueles que Pacheco Pereira indiscutivelmente representa, acima de todos a verdade na sua compostura face à coisa pública.Queira ele ou não, a vitória de Sócrates sobre Santana Lopes em 2005 demonstra insofismavelmente esta tese.
Arrisco a opinião que Pacheco Pereira pode ser, imediatamente, no PSD, a única alternativa credível e virtualmente vencedora face ao paupérrimo Luis Filipe Menezes.
Menezes
Menezes lidera um partido que parece maior que as suas capacidades, ou será que o PSD já é tão mais pequeno que antes a tal ponto que qualquer um pode almejar liderá-lo?
E é impressão minha ou de cada vez que intervém publicamente, reforça-se a noção de absoluta falta de densidade e credibilidade do presidente da câmara de Gaia?
É claro que Luis Filipe, ao aceitar ter Santana Lopes como líder parlamentar, visava aumentar credibilidade. Ou será que o que ele não conseguiu foi evitar o "pay back" dos apoios da ala santanista em plena campanha interna à liderança?
Está afinal Menezes refém de Santana?
E é impressão minha ou de cada vez que intervém publicamente, reforça-se a noção de absoluta falta de densidade e credibilidade do presidente da câmara de Gaia?
É claro que Luis Filipe, ao aceitar ter Santana Lopes como líder parlamentar, visava aumentar credibilidade. Ou será que o que ele não conseguiu foi evitar o "pay back" dos apoios da ala santanista em plena campanha interna à liderança?
Está afinal Menezes refém de Santana?
(aero)lobbying com patrocínio presidencial?
Que raio de interesses se acobertarão por debaixo dos estudos que a CIP tem andado a pagar, com vista a influenciar a mudança na decisão de localização para o futuro aeroporto de Lisboa?
Mais dificil ainda parece ser explicar o sentido do envolvimento do Presidente da República no caso, ao que consta, e de modo não desmentido, patrocinando a aventura "lobista" da organização de industriais.
Será que a Cavaco Silva é indiferente que amanhã um sindicato de interesses específico, ou até uma ainda mais concreta empresa financeira, venham a aproveitar directamente os resultados da decisão que a CIP agora procura fazer prevalecer, prevalecendo ela?
Mais dificil ainda parece ser explicar o sentido do envolvimento do Presidente da República no caso, ao que consta, e de modo não desmentido, patrocinando a aventura "lobista" da organização de industriais.
Será que a Cavaco Silva é indiferente que amanhã um sindicato de interesses específico, ou até uma ainda mais concreta empresa financeira, venham a aproveitar directamente os resultados da decisão que a CIP agora procura fazer prevalecer, prevalecendo ela?
sábado, 10 de Novembro de 2007
A liderança no campo de batalha
Conheço um exército em que muito do essencial corre mal e em que quase tudo o que não corre mal tenderá a correr pior que hoje. É uma presunção subjectiva, é claro.
Objectivo mesmo é que esse exército perde batalhas há muitos anos, pelo menos 15. Em muitos desses anos perdeu mesmo com grandes desfalques nos seus recursos.
Quando um exército perde continuadamente todas as batalhas está condenada a sua razão de vida, parece óbvio.
Os generais são os mesmos há 8 anos e meio, ou seja há mais de metade do ciclo perdedor.
Colocada assim em abstracto a questão, qualquer aluno principiante em Economia, Gestão de Empresas ou Estratégia Militar, ou mesmo qualquer simples amador no exercício das tácticas de Bom Senso, haveria de concluir que uma de duas ou as duas seguintes coisas estão mal: o exército há-de ter problemas estruturantes (processo estratégico e gestão operacional no combate) não resolvidos; a liderança há-de ter sido mal exercida, ou será simplesmente incapaz.
Fácil seria igualmente considerar que cabe em primeiro e último lugar à liderança de topo desencadear e gerir com sentido de urgência, consistência e gravidade os planos que modifiquem o estado de coisas e reponham os equilíbrios competitivos do seu exército quando estiver no campo de batalha.
Consta que em pleno cenário de combate, estando o nosso exército a ser copiosamente derrotado, os generais se viraram há dias para os seus oficiais e acusaram-nos de não serem merecedores da confiança dos generais. Sem mais.
Parece que esperavam atitudes voluntárias de resignação, auto-punição, talvez até gestos suicidários.
Há nesta postura, nestes resultados, na sua atitude em combate, algo talvez apenas explicável pela falta de leitura e conhecimento de outras experiências de perdas e derrotas militares e das responsabilidades das lideranças.
Razão porque recordo alguns conselhos recolhidos das minhas leituras de soldado:

1. o general é sempre o primeiro responsável do que sucede, o primeiro a recolher ensinamentos das derrotas e o último a celebrar as vitórias, pois deve antecipar que o general contrário comece por recolher ensinamentos da derrota que hoje foi dele;
2. até que o general tenha novos oficiais, é preciso que os que tem hoje, pois sempre há batalha nos seus campos de batalha, o general os envolva, mobilize e responsabilize como se fossem a equipa perfeita. Mesmo que amanhã alguns, ou quase todos os seus oficiais sejam substituidos;
3. o general deve fazer passar aos oficiais e às suas tropas por estes capitaneadas a convicção e a certeza de que a estratégia para a batalha e as tácticas que ele próprio gizou ou aceitou são as melhores para conduzirem o exército à necessária vitória. Deve para isso certificar-se de que são mesmo as melhores, entregando o seu patrocínio inequívoco uma vez elas decididas. Porque uma vez por si aceites e aprovadas, aquelas são em primeiro lugar as suas tácticas, a sua estratégia;
4. quando concluir que uma e as outras falharam, deve refazê-las com urgência e retomar no ponto 3. Se falharem todas, ou não conseguir substitui-las por soluções ganhadoras, deve repensar se é general para esta guerra;
5. o general deve conduzir as suas tropas realizando a gestão das harmonias que coesionem e mobilizem o moral, mas também a gestão das competições de mérito dentro das suas fileiras, num sentido de que os seus sectores menos competitivos se deixem contagiar pelos mais competitivos. Deve para isso o general interpretar e impulsionar a adopção dos factores positivos dos melhores sectores pelos piores, gerindo com os seus oficiais a "contaminação" virtuosa;
6. nunca deverá o general agir como se aquele não fosse o seu exército, ou não fossem aqueles os homens que tem para os combates que todos os dias decorrem no campo de batalha. Se o fizer, perderá a alma dos seus oficiais, o espírito das tropas, perderá batalhas, perderá a guerra, perderá o seu próprio sentido de existir enquanto líder. Deve então perguntar-se se ainda pode ser general naquela guerra.
7. última lição do dia, se em vez de campo aberto se disputar a guerra em pleno mar, estando o seu exército dentro de um barco, deve o general, aqui almirante, nunca esquecer que se perder demasiado tempo e demasiadamente titubear pode o barco afundar e que se este afundar deve aplicar o código de honra para o comando em alto mar, sendo o último a abandonar o navio. Em imagética militar significa este gesto dos mares o mais eloquente sinal de ser sempre sua a última e decisiva responsabilidade pelo afundamento.
Objectivo mesmo é que esse exército perde batalhas há muitos anos, pelo menos 15. Em muitos desses anos perdeu mesmo com grandes desfalques nos seus recursos.
Quando um exército perde continuadamente todas as batalhas está condenada a sua razão de vida, parece óbvio.
Os generais são os mesmos há 8 anos e meio, ou seja há mais de metade do ciclo perdedor.
Colocada assim em abstracto a questão, qualquer aluno principiante em Economia, Gestão de Empresas ou Estratégia Militar, ou mesmo qualquer simples amador no exercício das tácticas de Bom Senso, haveria de concluir que uma de duas ou as duas seguintes coisas estão mal: o exército há-de ter problemas estruturantes (processo estratégico e gestão operacional no combate) não resolvidos; a liderança há-de ter sido mal exercida, ou será simplesmente incapaz.Fácil seria igualmente considerar que cabe em primeiro e último lugar à liderança de topo desencadear e gerir com sentido de urgência, consistência e gravidade os planos que modifiquem o estado de coisas e reponham os equilíbrios competitivos do seu exército quando estiver no campo de batalha.
Consta que em pleno cenário de combate, estando o nosso exército a ser copiosamente derrotado, os generais se viraram há dias para os seus oficiais e acusaram-nos de não serem merecedores da confiança dos generais. Sem mais.
Parece que esperavam atitudes voluntárias de resignação, auto-punição, talvez até gestos suicidários.
Há nesta postura, nestes resultados, na sua atitude em combate, algo talvez apenas explicável pela falta de leitura e conhecimento de outras experiências de perdas e derrotas militares e das responsabilidades das lideranças.
Razão porque recordo alguns conselhos recolhidos das minhas leituras de soldado:

1. o general é sempre o primeiro responsável do que sucede, o primeiro a recolher ensinamentos das derrotas e o último a celebrar as vitórias, pois deve antecipar que o general contrário comece por recolher ensinamentos da derrota que hoje foi dele;
2. até que o general tenha novos oficiais, é preciso que os que tem hoje, pois sempre há batalha nos seus campos de batalha, o general os envolva, mobilize e responsabilize como se fossem a equipa perfeita. Mesmo que amanhã alguns, ou quase todos os seus oficiais sejam substituidos;
3. o general deve fazer passar aos oficiais e às suas tropas por estes capitaneadas a convicção e a certeza de que a estratégia para a batalha e as tácticas que ele próprio gizou ou aceitou são as melhores para conduzirem o exército à necessária vitória. Deve para isso certificar-se de que são mesmo as melhores, entregando o seu patrocínio inequívoco uma vez elas decididas. Porque uma vez por si aceites e aprovadas, aquelas são em primeiro lugar as suas tácticas, a sua estratégia;
4. quando concluir que uma e as outras falharam, deve refazê-las com urgência e retomar no ponto 3. Se falharem todas, ou não conseguir substitui-las por soluções ganhadoras, deve repensar se é general para esta guerra;
5. o general deve conduzir as suas tropas realizando a gestão das harmonias que coesionem e mobilizem o moral, mas também a gestão das competições de mérito dentro das suas fileiras, num sentido de que os seus sectores menos competitivos se deixem contagiar pelos mais competitivos. Deve para isso o general interpretar e impulsionar a adopção dos factores positivos dos melhores sectores pelos piores, gerindo com os seus oficiais a "contaminação" virtuosa;
6. nunca deverá o general agir como se aquele não fosse o seu exército, ou não fossem aqueles os homens que tem para os combates que todos os dias decorrem no campo de batalha. Se o fizer, perderá a alma dos seus oficiais, o espírito das tropas, perderá batalhas, perderá a guerra, perderá o seu próprio sentido de existir enquanto líder. Deve então perguntar-se se ainda pode ser general naquela guerra.
7. última lição do dia, se em vez de campo aberto se disputar a guerra em pleno mar, estando o seu exército dentro de um barco, deve o general, aqui almirante, nunca esquecer que se perder demasiado tempo e demasiadamente titubear pode o barco afundar e que se este afundar deve aplicar o código de honra para o comando em alto mar, sendo o último a abandonar o navio. Em imagética militar significa este gesto dos mares o mais eloquente sinal de ser sempre sua a última e decisiva responsabilidade pelo afundamento.
quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
Sócrates vs. Santana, numa arena perto de nós
Esperava-se para ontem um daqueles confrontos à antiga, no parlamento. De um lado o vivaço primeiro-ministro, de verbo e estilo sempre afiados, do outro o político preferido das revistas sociais, o homem para todas as emoções, o incompreendido, mas também o tribuno.
O ex-ministro de Sócrates, Luis Campos e Cunha, ele-mesmo um mito da competência técnica (mito sobretudo, pois na pasta das Finanças terá durado dois meses, por aí manifestamente incompetente), chegou mesmo ao ponto de encapotar um insulto a Sócrates, afirmando algo do género que Sócrates teria agora, enfim, um adversário ao seu nível intelectual e político. Claro que político é qualificativo menos importante que o primeiro, que nos remete para uma reputação de baixa projecção do emotivo ex-primeiro ministro Lopes.
Mas e o que sucedeu então? Aquilo que em boxe se chamaria de "knock out", alguns "knock down", vários "jabs" e um acervo completo de "upper cuts". E quase tudo proveniente de um só lado, de Sócrates.
É certo que o esquema em que funcionam estes debates parlamentares desequilibra em favor do Governo. Mas então mais assomaria a necessidade de auto-superação, de refinamento, de inteligência (emocional?)operativa.
José Sócrates não terá um Q.I. de tipo Einstein. Mas é Sócrates seguramente um político de toda uma outra estatura.
Absurdo é que toda a imprensa, quase todos os comentadores, mesmo alguns dos mais argutos e refinados, tenham embarcado na ideia da elevação do debate, trazida pela chegada de Santana à ribalta parlamentar.
Muito para lá dos poucos segundos que as televisões escolheram para resumo da sessão parlamentar de ontem, de tudo o que se viu e se pôde concluir, e eu vi todo o debate, é que o regresso de Santana Lopes nada de bom traz ao interesse nacional, ao interesse da maioria dos cidadãos e às causas cívicas da modernização da nossa sociedade. Santana, como bem sublinhou Sócrates, é figura de um passado copiosamente falhado. Nada disse ontem que não remetesse para 2005, 2004, até 2003, quando era suposto confrontar-se Sócrates com o que sucederá em 2008 e até em 2009, especificamente em função do documento ontem apresentado pelo Governo, a proposta de Orçamento do Estado para 2008.
É um desastre para o país e para o PSD que figuras populistas, demagógicas e até fúteis como Santana e também como Luis Filipe Menezes assomam como a alternativa de governação. Só se for para brincar aos governos, como manifestamente sucedeu com a cómica mas dramática experiência política do "novo" líder parlamentar do PSD.
E não é que o país precisa agora mesmo de uma verdadeira oposição que faça a Sócrates um autêntico desafio de "bench marking"? A propósito, para além do imparável Pacheco Pereira, onde estão os verdadeiros alternativos do PSD? Apetece pedir: deixem-se de brincadeiras.
O ex-ministro de Sócrates, Luis Campos e Cunha, ele-mesmo um mito da competência técnica (mito sobretudo, pois na pasta das Finanças terá durado dois meses, por aí manifestamente incompetente), chegou mesmo ao ponto de encapotar um insulto a Sócrates, afirmando algo do género que Sócrates teria agora, enfim, um adversário ao seu nível intelectual e político. Claro que político é qualificativo menos importante que o primeiro, que nos remete para uma reputação de baixa projecção do emotivo ex-primeiro ministro Lopes.
Mas e o que sucedeu então? Aquilo que em boxe se chamaria de "knock out", alguns "knock down", vários "jabs" e um acervo completo de "upper cuts". E quase tudo proveniente de um só lado, de Sócrates.É certo que o esquema em que funcionam estes debates parlamentares desequilibra em favor do Governo. Mas então mais assomaria a necessidade de auto-superação, de refinamento, de inteligência (emocional?)operativa.
José Sócrates não terá um Q.I. de tipo Einstein. Mas é Sócrates seguramente um político de toda uma outra estatura.
Absurdo é que toda a imprensa, quase todos os comentadores, mesmo alguns dos mais argutos e refinados, tenham embarcado na ideia da elevação do debate, trazida pela chegada de Santana à ribalta parlamentar.
Muito para lá dos poucos segundos que as televisões escolheram para resumo da sessão parlamentar de ontem, de tudo o que se viu e se pôde concluir, e eu vi todo o debate, é que o regresso de Santana Lopes nada de bom traz ao interesse nacional, ao interesse da maioria dos cidadãos e às causas cívicas da modernização da nossa sociedade. Santana, como bem sublinhou Sócrates, é figura de um passado copiosamente falhado. Nada disse ontem que não remetesse para 2005, 2004, até 2003, quando era suposto confrontar-se Sócrates com o que sucederá em 2008 e até em 2009, especificamente em função do documento ontem apresentado pelo Governo, a proposta de Orçamento do Estado para 2008.
É um desastre para o país e para o PSD que figuras populistas, demagógicas e até fúteis como Santana e também como Luis Filipe Menezes assomam como a alternativa de governação. Só se for para brincar aos governos, como manifestamente sucedeu com a cómica mas dramática experiência política do "novo" líder parlamentar do PSD.
E não é que o país precisa agora mesmo de uma verdadeira oposição que faça a Sócrates um autêntico desafio de "bench marking"? A propósito, para além do imparável Pacheco Pereira, onde estão os verdadeiros alternativos do PSD? Apetece pedir: deixem-se de brincadeiras.
terça-feira, 6 de Novembro de 2007
fui ao Bombarral: uma espécie de viagem no tempo
Ontem passei pelo Bombarral. Não ia lá desde 1975, altura em que, com o meu irmão e os meus pais, incorporámos uma caravana de carros do Partido Socialista, em acção mais ou menos comicieira. Decorridos estes 32 anos, a minha memória era quase nula, apenas me ocorrendo uma mata onde comemos em registo de "piquenique" e uma camioneta carregada de vinhos, fornecidos à discrição. Creio que se celebrava nessa altura a festa do vinho, ou algo equivalente. O facto de ter sido essa das últimas viagens com o meu pai, que morreria meses depois, de um cancro fulminante, talvez tenha contribuido para gerar uma (sub)consciência romântica, quase mítica, do sítio.
Entrei e sobreveio logo a sensação de generalizado vazio. Mas onde estaria a gente do Bombarral? Rua após rua encontrei ora uma pessoa, ora duas ou três, quase nenhuma indicação toponímica, obras a despropósito, a sugerirem que talvez existam há décadas, construções quase todas insípidas e enfim um prédio belo... mas em absolutas ruínas.
Parecia que o tempo parara ontem, no Bombarral.
Precisei de ir a um qualquer mercado. Na minha consciência mítica o Bombarral tinha de ser terra por excelência da castanha saloia, para lá da água-pé.
Procurei por "lugares", mini-mercados, qualquer ponto de venda banal, se possível minimamente significativo de uma cidade existindo em ambiente semi-rural.
Mas não. O mais típico que consegui encontrar foi o Lidl. Entrei. Por junto, estariam uns 6 clientes, menos que as funcionárias. Não havia castanhas, não havia vinhos ou àgua-pé assinalados como sendo da zona. Comprei pão de Mafra.
Na caixa, uma idosa questiona a empregada da grande superfície: a que horas fecham para almoço? Era o momento de absoluto surrealismo do sítio.
Saí, pensando que o melhor era afastar-me rápido daquele lugar meio alucinado, quase sitiado. Grande problema: quase inexistem placas indicativas do caminho de saída. Dei voltas e voltas, parece que andei até em contra-mão. Mas como não havia ninguém todas as asneiras pareciam possíveis.
Ontem, no Bombarral, tive a noção de ter viajado na máquina do tempo, a um daqueles sítios sem sentido, esvaziados, desnecessários, quase apagáveis. Parecia lugar assombrado, ou até estúdio de um filme de Hitchcock.
Talvez um dia volte, para dar a esta terra uma segunda oportunidade. Todos merecem uma segunda oportunidade. Até a fantasmagórica cidade saloia do Bombarral.
segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
a fobia televisiva por sangue
Incomoda-me que as televisões acorram freneticamente a colher imagens e a fazerem aos 15 minutos de reportagem sobre um atropelamento ocorrido em Tires, por muito grave e traumático que possa ter sido.
Perturba-me que uns cavalheiros evidentemente séniores que decidem o que passa e não passa nos serviços noticiosos que em Portugal o povo vê aos milhões, decidam mediocremente preterir ou até não divulgar informações críticas sobre o nosso mundo de hoje (a Argentina, a Turquia, o Paquistão, o Chade, e tantos mais em convulsão, todos a fazerem actualidade mundo fora), para assim subirem 3 a 4 pontos percentuais no "share" das audiências.
É então inaceitável, para mim, que uma estação - a RTP - em grande medida financiada pelos impostos de todos, alinhe no nível mais térreo, disputando sangue, touradas, missas e futebol às estações de televisão privadas, muitas vezes superando-as em desfaçatez cívica.
Perturba-me que uns cavalheiros evidentemente séniores que decidem o que passa e não passa nos serviços noticiosos que em Portugal o povo vê aos milhões, decidam mediocremente preterir ou até não divulgar informações críticas sobre o nosso mundo de hoje (a Argentina, a Turquia, o Paquistão, o Chade, e tantos mais em convulsão, todos a fazerem actualidade mundo fora), para assim subirem 3 a 4 pontos percentuais no "share" das audiências.
É então inaceitável, para mim, que uma estação - a RTP - em grande medida financiada pelos impostos de todos, alinhe no nível mais térreo, disputando sangue, touradas, missas e futebol às estações de televisão privadas, muitas vezes superando-as em desfaçatez cívica.
domingo, 4 de Novembro de 2007
Tony Blair: um homem importante do nosso tempo
Vi hoje, pela primeira vez, o filme - "The Queen" - de Stephan Frears que retrata o período da morte de Lady Diana Spencer, em 1997.
Nesse filme, a realidade ficcionada aparece como bastante verosímil, apresentando-se uma rainha Isabel II incapaz de decidir e agir certo, em tempo próprio, sempre arrastada pelos acontecimentos, ultrapassada no seu tempo e na sensibilidade do povo britânico desse tempo que tem hoje apenas 10 anos.
Nesse filme, a realidade ficcionada aparece como bastante verosímil, apresentando-se uma rainha Isabel II incapaz de decidir e agir certo, em tempo próprio, sempre arrastada pelos acontecimentos, ultrapassada no seu tempo e na sensibilidade do povo britânico desse tempo que tem hoje apenas 10 anos.Estabelece o argumento deste filme ter sido Tony Blair, "o modernizador", personalidade nesse mesmo ano emergente, o verdadeiro paladino dos valores e dos sentimentos da nação, a trincheira de reserva de sensatez do poder face ao infortúnio e ao alarme generalizados que a morte de Diana trouxe a quase todos os britânicos e um pouco a todo o mundo.
Para além dos méritos documentais e da veracidade deste bom filme de Frears, de resto oscarizado, interessa-me realçar a dimensão única e destacadíssima desse homem que durante 9 anos governou este país charneira da Europa, ainda em tantos aspectos referencial cultural do nosso tempo.
Tony Blair tornou-se por vezes odioso, sobretudo depois do seu suporte à guerra de George W. Bush contra o Iraque, o seu sempre presente sorriso, a sua eloquência insuperável, a "body language" quase atlética, tudo em Blair pareceu muitas vezes poder obscurecer o essencial: que foi ele provavelmente o melhor primeiro-ministro britânico de sempre, fautor de extraordinárias políticas sociais e educacionais, o construtor da paz na Irlanda do Norte, o incentivador e efectivo fazedor de uma Grã-Bretanha menos centralista, com mais democráticos prerrogativas para as outras nações da união. E tanto mais.
Blair foi, neste nosso tempo, o melhor líder europeu, o único cuja inteligência, equilíbrio, visão, e também cujo poder de interacção com os povos, neste caso sobretudo com o seu povo, o único que poderia ter-se posicionado à altura do que um dia será inevitável: a liderança de uma Europa unida nos seus valores inigualados.
Para mim, um apreciador da grande figura do século XX que foi Winston Churchill, o líder que a Europa precisou ter em tempo de guerra, Tony Blair terá sido o melhor líder que a Europa depois teve em tempo de paz.
Poderá a Europa compreendê-lo suficientemente, ele ainda um jovem, a Europa indo precisar muito brevemente de uma real liderança política?
Olhar o mundo

Olhar o mundo era título indisponível, no universo Blogspot. A primeira escolha foi o ingês "Looking the World", pois o inglês também serve, num panorama em que cada vez mais pacificamente este se impõe como a linguagem da universalidade, a fala chave do mundo.
Até nos daria jeito que existísse este blogue em inglês, pequena provocação inicial de quem confia que o mundo do futuro próximo há-de e deve ser um mundo com tudo o que há de bom e unificador tornado cada vez mais global, como parece ansiar a menina birmanesa que nos acompanha neste início de vida.
O mundo em que pensamos à partida é de facto o mundo global.
Mas também nos interessa o mundo cósmico, mais filosófico, o mundo da vida.
Há ainda o mundo mais pequeno do rectângulo que é este nosso país, a realidade político-jurídica e linguística de que partimos.
Há enfim o nosso micro-mundo, a esfera pequenina da nossa proximidade individual, pejada quantas vezes de ocorrências sensíveis e de interesse projectável a níveis mais globais, ou destes também expressão.
Pensamos, ambiciosamente, em todos esses mundos. De todos nos ocuparemos, ora de um, ora de outro, ora de vários ao mesmo tempo.
Finalmente, olhando a lombada de um livro de Zurara, as Crónicas da Guiné, ocorreu o cruzamento que escolhemos para título: serão crónicas e dirigimo-nos mais que ao mundo afinal, ao Cosmos. Isto é que é ambição!
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